quarta-feira, 08 de dezembro de 2021
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Uma garrafa jogada no mar de Gaza, comentário de DIOGO BERNI

Diogo Berni comenta e sugere três filmes
25/05/2013 às 11:11
Nada fácil é resenhar sobre um conflito que se passa ao longo das últimas décadas por questões religiosas e políticas. Sobre as questões políticas isso se torna de forma macro, visto que temos os EUA apoiando um dos lados. Refiro-me ao que parece inacabável conflito de terras entre Israel e Palestina no filme Uma garrafa jogada no mar de Gaza (Une Bouteille à la Mer), Thierry Binisti, França, 2011.

  Apesar de seus personagens centrais serem juvenis e até mesmo por isso talvez explique o conflito com um certo distanciamento raivoso que dá o tom em outras produções que pretenderam falar sobre o tema. 

   De um lado uma Israelense criada em Paris que quando volta para morar em sua cidade natal, Tel-aviv, vê alguns dos seus parentes serem mortos por homens-bomba da outra faixa de Gaza. E por outro lado temos um homem que respeita, mas não tão a "regra" tudo o que a religião muçulmana, embora não gostasse  de judeus, bem como quase todo muçulmano não goste por razões óbivas. 

   A história começa no mar de Gaza em margem israelita onde o irmão, que era um soldado de Israel, da personagem central feminina joga uma garrafa com uma carta dentro ( escrita pela menina israelense e judia ) para que essa se vá ao outro lado da margem do mar de gaza, ou seja, da Palestina. 

   O outro personagem central da história, o palestino, encontra a tal garrafa  com amigos, e ele por ser o único, a saber, ler inglês fica com a carta a vai se correspondendo com a israelense. A carta continha apenas uma pergunta: “Porque vocês se explodem e matam tanta gente aqui em meu país?”. 

   Através da pergunta adentramos nas facetas do conflito, do porque ambas as partes agem assim e como dificilmente isso mudaria. Nessa troca de e-mails o palestino começa a estudar francês, estudo esse que gera conflito em sua família por não aceitar que ele vá conhecer Paris para encontrar agora a sua amiga judia. De uma maneira peculiar o casal lembra Romeu e Julieta. O desfecho do filme nos mostra que este longínquo conflito de interesses e terras está longe de terminar, mas que pode ser compreendido mais agradavelmente.
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   Para quem não viu em 2001, a comédia romântica italiana O Último Beijo que fez sucesso ao narrar as dúvidas de Carlo (Stefano Accorsi) às vésperas de seu casamento com a namorada grávida, Giulia (Giovanna Mezzogiorno), pode ficar voando no início dessa continuação do diretor Gabriele Muccino em Beije-me Outra vez, Itália, 2010      ( sim : demorastes três anos para chegar no Brasil), mas se percebe a intenção (ou a falta dela) da comédia dramática, de modo que dá pra conferir sem ter visto o primeiro filme em 2001. 

   Deste de 2013, agora todos os personagens já com seus quarentinhas anos de idade, pode ser definido como uma novela mexicana à moda italiana. Com suas 2:20hs de projeção vemos dramas comuns passeando sobre nossas íris como: um homem que tem espermatozoides atrasados, ou outro que é pai e não conhece o filho por ter sido preso, ou uma mulher que adora cavalos e talvez por isso queira um marido mais viril moral e sexuadamente e por isso o traí ou até um outro personagem esquizofrênico que insistia em dizer que “aquilo” não era com ele e volta e meia parava de tomar seus remédios que o deixavam sociável e vivo. 

   Tem ainda os personagens centrais da comédia que estão no processo de separação, com divórcio, divisão de bens, filha, etc., e ainda assim tem dúvidas se realmente querem se separar ( daí fiz a singela ligação com as novelas mexicanas e seus casais “ioiô”, ou seja, ficam e voltam e voltam e ficam ). No inicio do filme já temos uma ideia do que nos aguarda com a indignação do personagem central de estar se separando da esposa e esta já ter outro, porém ainda usar seu sobrenome. O detalhe é que ele já tinha outra também, pois como diz o ditado: “a fila anda”, mas não admitia que a ex-esposa tivesse . 

   Com essa introdução aos cinco minutos de projeção percebi que se tratava de um filme machista baseado em calcanhares católicos, mas como queria treinar o italiano aguentei firme até o final. Se for para indicar: não indico, mas se não tiver mesmo nada pra fazer é bem melhor que a sessão da tarde e ainda dá para se deliciar com o idioma mais belo do mundo para se ouvir. Todavia mais uma vez um filme italiano não convence (a mim e a muitos críticos); eles são ruins mesmo em fazer filmes, ao menos os atuais sem querer colocar no mesmo balaio cineastas como Frederico Felinni e Guisepe Tornnatore, porque aí já é outra estória.

   De qualquer maneira Beije-me outra vez nos traz cenários belíssimos da Itália e dramas existenciais nobres dos seus personagens já maduros, então você decide se vale conferir ou não, já sabendo que não irá ver uma obra de arte de um Tornnatore, como: Barria – A porta do vento ou um: Ladrões de bicicleta do Fellini.
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   O ser humano é mesmo uma coisa interessante. Escrevo isso para referir-me ao drama que aborda a questão da emigração europeia em O Silêncio De Lorna, dos irmãos Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, 2008, Itália , Alemanha , França , Bélgica. Lorna é uma mulher de origem albanesa que tenta se casar com um belga a fim de conseguir o passaporte para entrar na União europeia, visto que seu país, Albânia, apesar de ser europeu não faz parte do bloco econômico que dá regalias aos seus cidadãos. Nesse esquema de casamentos armados Lorna casa-se de papel com um usuário de drogas (heroína) com a condição de que ela tentasse tirá-lo do vicio frenético. A ideia do casamento armado vem do seu namorado que junto com ela sonhara em comprar uma lanchonete com o dinheiro do golpe. 
 Porém como o ser humano não é e nunca será uma máquina exata e confiável, Lorna em sua ajuda em tirar seu suposto marido falso da Heroína se envolve com o tal e transam em uma ação de instinto para colocar o sexo no lugar da droga. Porém essa transa desencadeia coisas que Lorna não esperava, tampouco seu marido belga falso. O cara se apaixona por ela ao ponto de se livrar da heroína e ela de certo modo acaba se entregando a ele emocionalmente também. Tudo é muito rápido, pois a carta do divórcio dos dois chega. 

  Divórcio este requerido por ela por supostas violências por parte do marido( violências estas que nunca existiram de fato, tudo fazia parte do esquema internacional de casamentos armados). Com a notícia do divórcio e a frieza involuntária de Lorna ( por estar no esquema ), o marido belga acaba morrendo de overdose no mesmo dia, fato este faz com que a policia coloque a culpa da morte do viciado no divórcio e consequentemente em Lorna. 

  Ela absorve essa culpa e entra em transe achando que tivera ficado grávida do falecido marido arranjado. Esse parte do filme provoca algum desconforto já que exames de ultrassonografia comprovam a não gravidez , porém Lorna insiste na tese de estar esperando um filho (a). Uma fotografia belíssima da fria Europa e o tema sempre atual da emigração naquele continente, mesmo hoje como anda: assolado em crise financeira.