sexta-feira, 03 de dezembro de 2021
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

O VISITANTE É UM COMOVENTE FILME SOBRE A IMIGRAÇÃO

Veja
08/09/2012 às 06:05

Foto: DIV
Negros invadem um apartamento abandonado em NY de um aposentado
   Desejo de ser mãe ou Nordeste, Espanha, Bélgica, Argentina e França, 2005, do diretor Juan Solanas. Assim como no Brasil, o nordeste argentino é desprovido de leis onde a bala é quem dita os acontecimentos.

   A estória se passa com a obstinação de uma vendedora de remédios francesa em adotar um recém-nascido naquela região argentina conhecida como a capital mundial do tráfego de crianças e órgãos. Mas para tal desejo ela obrigatoriamente tem de literalmente se afundar nas condições de vida daquelas pessoas tratadas como bichos ou coisa pior, pois direitos mais elementares não tinham, tais como: moradia, educação e falta de comida.

   Nesse a cada dia descobrimento da miséria sul americana a francesa vai se corroendo por dentro e percebendo que de certo modo contribui para o estado de vida daqueles portenhos querendo a qualquer modo e preço comprar e levar um bebe daquela miséria.

   Nem toda frieza gaulesa é capaz do assentimento da situação dos argentinos, de modo que temos ao final de um drama super bem feito de roteiro e direção de arte algumas dúvidas no ar como: será que toda aquela obstinação da vendedora francesa no inicio da fita em adotar uma criança continua na sua mente ou diante de tudo que ela viu ela muda de ideia.

   Até mesmo porque em determinado momento do drama , quando ela atordoada com a perda do seu primeiro bebe adotado por questões de males de nascimento, procura a freira da região em que a qual lhe faz mais que uma orientação, mas uma indagação: "Minha filha, sabia que com todo esse dinheiro que dará para comprar um filho, você sabia que daria para sustentar cinquentas famílias durante algum tempo?".

   Não sei se foi impressão minha ou se o diretor fez de propósito mais depois desse diálogo a protagonista pareceu-me mais pensativa, chorosa e acima de tudo culposa por seu egoísmo de ter uma criança e levá-la a qualquer custo para a França, sem se importar com os sentimentos das mães , que pela situação de extrema miséria que viviam eram obrigadas a dar suas crias para poderem ter ao menos o que comer.

   Como mencionei o final ficou meio que aberto, não dando um ponto ou explicação dos fatos que sucederiam após ela ficar confusa em adotar uma criança e tirá-la da miséria e criminalidade ou deixarem com seus parentes vivendo pobremente, porém sem problemas existências e somente financeiros.

   Isso ficou aberto de modo que a meu ver enriqueceu ainda mais (pelo fato de você tirar as conclusões do que o mais correto seria a fazer, ou seja: adotar ou não) a densa carga dramática da fita argentina, que escreva-se de passagem de uma qualidade só vista neste país na pobre ainda America do Sul, e que também de uma maneira oculta faz admiramos aquele povo desprovido de tantas coisas materiais, porém com uma generosidade imaterial comovente.
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   O visitante, do bacana diretor Thomas McCarthy e como protagonistas: Richard Jenkins e Haaz Sleiman, EUA, 2005.

   Imagina você voltando pra casa e se vê com seu apartamento ocupado por africanos refugiados em plena Mahattan? Pois bem, este é a introdução da estória do filme que resenharemos. Um acadêmico viúvo e solitário que mora em São Francisco, porém tem um apartamento em New York pelo motivo de hora por vezes aparecer na cidade; ora para sair da rotina e viajar ou ora por obrigação trabalhística.

   O tal acadêmico, que já um senhor com seus quase sessentinha, fica quinze anos sem ir ao seu imóvel na capital financeira e cultural norte americana por ficar mal pela morte de sua esposa. Quando consegue animo pra tomar um avião de São Francisco a New York e abre a porta do seu apartamento depara-se com uma belíssima negra se banhando na banheira de sua esposa.
 
   No mesmo ato aparece um baita de um negrão pegando o tal acadêmico pela crina ou pescoço pensando que tal era um ladrão ou estuprador. Com as devidas explicações feitas por ambas as partes: a do acadêmico de meia idade afirmar que aquele imóvel em que o casal se instalara era dele e tinha até suas chaves para adentrá-lo, e o casal pedir desculpas, pois foram enganados por um vulgo falso corretor de imóveis.

   Dessa situação desagradável surge uma amizade; esta provavelmente pela solidão de ambas as partes, visto que o casal era ilegal em solo norte americano e o acadêmico era carente de amizades e novidades.

   O professor então tem a gentileza depois de os expulsarem de sua casa a voltar atrás de sua decisão e o convidarem a ficar na casa dele até arrumar algum outro local para se instalarem. Uma informação de suma relevância para o enredo do filme é que o casal africano ilegal nos EUA era muçulmano de corpo e alma e até dizer chega de tanto fanatismo, principalmente por parte do homem que não abria mão das orações de tantas e tantas horas ao dia.
 
   Porém este mesmo muçulmano era um baita músico, onde pelo seu talento se sustentava e sua bela mulher nessa vida ilegal nos "States of America". O instrumento que tocava era um bangô: um tipo de tambor que tinha sons parecidos com os dos nossos atabaques brasileiros ou baianos.

   E a sustentação do filme é a paixão repentina, porém curadora que o tal acadêmico de meia idade começa a ter pelo som do instrumento e de como tocá-lo com as aulas que recebia do seu visitante agora amigo. Começava-se uma amizade que transpôs idiomas, religiões e diferenças culturais.

   A arte fora mais uma vez a diferença para que todas essas outras diferenças citadas ficarem a segundo plano, ao menos ao meu parecer. Acontece que em uma estação metrô nova-iorquino o imigrante africano é detido aparentemente pela alta rigidez da policia depois dos ataques de 11 de setembro, pelo fato de ser muçulmano e ter cara disso.

   O cidadão ilegal e agora muito amigo do solitário professor universitário é julgado e terá que ir embora ao seu país de origem: Marrocos; enquanto a sua esposa continua escondida para não ser pega também, visto que era nigeriana sem visto.

   Com a noticia da prisão do filho: a mãe; uma iraniana belíssima de meia idade vem aos EUA para ver o que se sucede com seu filho, visto que antes da prisão falava com ele por telefone todos os dias, fazendo chuva ou sol, nevando ou não. Daí o solitário professor e a essa altura um professor também em tocar o Bangô acaba conhecendo aquele estupendo de mulher que sortemente era viúva como ele.

   O final todos já deve imaginar. A mensagem legal desse filme para esse vos escreve foi o desprovimento do acadêmico a fim de conhecer outras pessoas e talvez isso pelo fato ou medo da tão tenebrosa solidão na terceira idade.
 
   Por sua atitude corajosa, ou seja, abrigar pessoas totalmente desconhecidas em seu teto, ele acaba conhecendo outras pessoas e mudando sua vida e até seu status social de viúvo para casado novamente, agora com uma belíssima muçulmana interpretada pela atriz Hiam Abbass.

   Fecho esta resenha com o resumo que entendi do filme que foi: Abra sua cabeça, seus valores, seus conceitos: pré ou pós-conceitos que outras coisas e perspectivas encaminham a te encontrar naturalmente.

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   Last night
ou Apenas uma noite é um filme para casados desconfortáveis com esse status. Com direção do Massy Tadjedin e com a bela Keira Knightley no elenco, 2010, EUA,França.

Conta-se a estória de um casal que é formado por um homem de negócios e por isso viaja bastante, casado com uma escritora que vive em casa e precisa de silêncio. Silêncio esse externo e interno, coisa que ele não consegue dar a ela. Por isso, por uma noite os dois têm experiências com terceiros enquanto estão em cidades diferentes. O foco principal do filme é esse, o tal encontro ou desencontro desse casal com terceiros por o casamento não andar tão bem das pernas.
 
A reboque vem o desafio de manter a relação sabendo agora quanto diferente são ao chegar ao ponto de se perguntarem o porquê estão juntos até agora. Parece que como um meteoro e com algumas garrafas de vinho eles percebem que não dá mais para continuarem juntos.

A mensagem entendível da parte que vos escreve desse filme é a seguinte: A traição é por vezes a maior das virtudes para um relacionamento que vai "em maus lençóis".