Livro essencial, de cabeceira, psiquiatria rehumanizada, logoterapia, análise existencial que eleva o ser.
O que escreveu e praticou como psiquiatra depois do caos que foi o pós guerra quando o mundo ocidental foi dividido em blocos – comunistas x liberais – o sofrimento dos envolvidos na II Grande Guerra não cessaram e os traumas seguiram adiante milhões de pessoas precisando de ajuda psicossocial. É dessa época, anterior a I Guerra Mundial, inicio do século que a psicologia avança como ciência e a psiquiatria vai ter um papel relevante na vida das pessoas. Não esqueçamos que os dois país da psicologia moderna (sic) foram Sigmund Freud e Carl Gustav Jung, ambos psiquiatras, ambos com escritos em alemão. Viktor Frankl vem da escola vienense, da Áustria imperial, austera com ensino dedicado.
Vamos falar de sua obra mais significativa que se intitula “Em Busca de Sentido” (EditorA AUSTER, Campinas, SP, direitos autorais do CEDET, tradução Bruno Alexander, capa José Luiz Gozo Sobinho, 149 páginas com glossário e textos selecionados, R$50,00 nos portais da internet) considerado um livro sublime, profundo, uma narrativa que conduz a libertação do ser (memo para quem passou por 4 campos de concentração nazista) pela liberdade sem rancor, sem ressentimentos. O que é, muito difícil de ser praticado, aceito e disseminado como uma terapia de cura do homem.
O home, como via Frankl, acima de todos os sintomas e traumas que carrega na cidade, de toda carga de sofrimento, para um homem pleno, integral, livre.
Em “A Bailarina de Auschwitz”, Edith Eva Eger, psicóloga húngara que viveu nesse campo de concentração e outros dois por três anos, ela e a irmã, ambas sobreviventes, conheceu o livro “Em busca de sentido” através de um paciente e como Frankl morava nos Estados Unidos se tornaram amigos durante muitos anos até que faleceu (1997) cita-o em várias passagens do seu livro e numa delas comenta:
“Viktor Frankl escreve: A busca do homem por sentido é a principal motivação de sua vida... Este sentido é único e específico, pois pode e deve ser cumprido por ele sozinho, somente então se alcança um significado que satisfará a própria vontade de sentido”. E ela (Eva) comenta: “Quando abdicamos de assumir a responsabilidade por nós mesmos, estamos abrindo mão de nossa capacidade de criar descobrir o sentido. Em outras palavras: desistimos de viver”.
A reviravolta na vida de Frankl se deu aos 37 anos de idade já formado em medicina e psiquiatra que atuava em Viena na contracultura do niilismo, a filosofia que nega o sentido último da existência humana, em moda na Europa dos anos 1940 com muitos jovens lendo Schopenhauer, Nietsche, Freud, Sartre, quando foi levado pela SS alemã para o primeiro dos 4 campos de concentração por que passaria.
Diria, não ao certo, e nem ele mesmo soube dizer porque conseguiu sobreviver ao holocausto, porém, há evidência de que ele, como médico, os alemães perceberam que poderia ser um colaborador (não um adesista à causa nazista) à ciência nos experimentos que realizavam, além de atuar como clínico num ambiente pestilento, de sífilis, tuberculose e mutas mortes.
O que fez com que “Em Busca do Sentido” fosse (e é) o livro mais importante deste autor, ele próprio ficou surpreso quando de sua publicação, uma vez que já tinha editado muitos outros, tenha se transformado num sucesso e é considerado um dos mais influentes de toda a literatura pós II Guerra, nesse campo da psiquiatria.
Veja a sabedoria desse homem: “Sempre digo aos meus alunos na Europa e nos Estados Unidos: Não procurem o sucesso. Quanto mais vocês o buscarem como numa meta a ser alcançada, mas ele se distanciará. Pois, o sucesso, tal como a felicidade, não pode ser perseguido; tem que ser algo que surge naturalmente e isso só acontece como resultado involuntário de nossa dedicação a uma causa superior a nós mesmos ou como consequência inesperada da nossa entrega a outra pessoa”.
Escreveu isso em Viena, em 1992, e faleceu 5 anos depois.
Por que o livro de Frankl fez tanto sucesso com apenas 120 páginas e como ele mesmo diz sem o objetivo de relatar os acontecimentos nos campos e os sofrimentos das pessoas?
Pelo fato de que ele procurou entender como o cotidiano num campo de concentração refletia na mente de um prisioneiro comum.
Destaca que, na psiquiatria, existe certa condição conhecida como “ilusão do indulto” quando o condenado, em seus últimos momentos antes da execução, constrói a ilusão de que pode ser poupado no último instante.
Certa feira, perguntei aos prisioneiros que já estavam ali a mais tempo para onde meu colega a amigo P tinha sido levado. – Mandaram seu amigo para o lado esquerdo? – Sim – respondi. – Então você pode vê-lo ali – me disseram. – Onde? – Apontaram para uma chaminé onde saia uma nuvem de fumaça sinistra.
Evidente que Frankl (como alguns outros) sobreviveram mais por questão de sorte do que de qualquer outra coisa. Mas, mesmo assim, como encarar a vida (ou o possível resto de vida que ainda teria) indo para um outro campo para executar trabalhos forçados?
Eis a questão mais intricada para uma mente. Como reage a pessoa para não se desesperar e perder o controle emocional e esperar pacientemente os novos acontecimentos.
Para isso diz que usou a técnica dos exercícios mentais, de criar os discursos mentais refugiando-se numa realidade de riquezas interiores e liberdades espirituais. E, ao mesmo tempo, deu por encerrada toda sua vida anterior. Ou seja, como viva entre a vida e a morte, diariamente, o valioso era manter a mente em equilíbrio e praticar diários interiores fictícios, com sua esposa, por exemplo, que não saberia, na real, se estava viva ou morta, mas que representava a esperança.
“Os verdadeiros prazeres positivos, ainda que pequenos, eram muito raros para nós. Lembro-me de montar certo dia, uma espécie de balanço dos prazeres”, cita Frankl num dos textos pílulas do livro.
Para um sobrevivente de campos de concentração o ato da liberdade é valioso, porém, o sofrimento dessa pessoa passa por muitos tormentos. “Depois de três anos de prisão, imaginava a liberdade com imensa alegria, pensando em como seria maravilhoso correr para a frente da batalha. Mas, não chegamos a esse ponto () .. a forma como suportamos o sofrimento foi uma autêntica realização interior. É essa liberdade espiritual (que não pode ser tirada de nós) e que torna a vida significativa e plena de propósito”.
Para Frankl “Se existe um sentido na vida, então deve haver um sentido no sofrimento. O sofrimento é parte irrevogável da vida, assim como o destino e a morte. Sem o sofrimento e a morte, a vida humana não pode ser completa”.
Livro essencial, de cabeceira, psiquiatria rehumanizada, logoterapia, análise existencial que eleva o ser.