sexta-feira, 15 de dezembro de 2017
Turismo

Angolanos lotam aviões para tratamentos estéticos no Rio de Janeiro

Angolanos lotam aviões para tratamentos estéticos ou de reprodução assistida no Rio

Globo , RJ | 24/11/2013 às 13:17
Edna Bessa
Foto: Globo
RIO - Que beleza é a natureza das viagens que estão movimentando a ponte aérea Luanda-Rio de Janeiro. Se, nos anos 70 e 80, os angolanos buscavam refúgio contra a guerra civil, hoje vêm atrás de lipoaspiração, terapia capilar, laser contra estrias e, é claro, botox. Como a infraestrutura de serviços ainda é precária no país, pacificado desde 2002, o avião virou a melhor saída para a emergente classe média angolana que quer ter acesso a aparelhos e cosméticos que não existem do lado de lá do Atlântico. Um cálculo informal do consulado de Angola estima que, dos 25 mil visitantes anuais, pelo menos 30% vêm procurar algum tratamento estético. Nesse vai e vem, outro nicho cresce a olhos vistos: o da reprodução assistida.

— De 2006 para cá, ajudamos no nascimento de 112 bebês angolanos — conta o médico Luiz Fernando Dale, que, no consultório, tem uma prateleira repleta de estatuetas africanas presenteadas pelos clientes. — As mulheres fazem o tratamento e ficam até o parto. E muitas querem gêmeos — acrescenta o médico, que recebe, em média, três novos pacientes de Angola por semana.

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O aluguel de apartamentos por temporada em Copacabana é a solução para quem está encomendando o bebê, como Ana Elisabeth Miguel, de 39 anos, que trabalha na área de seguros. Desde 2009, ela se trata com Dale. Em 2010 e 2011, não conseguiu engravidar, mas não desistiu: a próxima tentativa será em março de 2014.
— Compensa fazer o tratamento no Rio por um simples motivo: lá, não temos nada semelhante. O país ainda está se refazendo da guerra, carece de infraestrutura — afirma Ana Elisabeth, que prefere não estimar quanto está gastando com o sonho de ser mãe.

Barato não é. Em geral, um tratamento de reprodução assistida custa em torno de R$ 20 mil — fora as despesas com a estada. Parece muito quando se olha de forma genérica para a situação de Angola, um país em que 38% da população dos quase 21 milhões de habitantes vivem abaixo da linha de pobreza, ou seja, com menos de US$ 2 por dia. Em 2000, porém, eram 62%. A necessidade de reconstruir o país com o fim da guerra e a efervescência da indústria petrolífera fazem a classe média crescer e se multiplicar. Estimativas de organismos internacionais indicam que, na capital, Luanda, 48% dos três milhões de moradores já pertencem ao estrato social que pode se dar ao luxo de ter casa própria, carro ou viajar para o exterior. Detalhe: um relatório da consultoria americana McKinsey, publicado em julho, indica que 71% dos angolanos apostam que seu nível de vida vai subir nos próximos dois anos.

Em busca do padrão carioca de beleza

Os três voos semanais da TAAG para o Rio estão sempre lotados. A razão para essa preferência é histórica: entre 1975 e 2002, quando a guerra civil devastou Angola, levas de refugiados foram acolhidos no Rio. Agora os angolanos continuam dando preferência à cidade que os recebeu nos tempos mais difíceis.

— Para os angolanos, é chique dizer que fez um tratamento no Brasil — observa o fundador da Sociedade Brasileira de Odontologia Estética, Marcelo Fonseca. — Muitos chegam mutilados, já que, por anos, o máximo que podiam fazer era arrancar os dentes. E os dentistas brasileiros são conhecidos no mundo todo, pela competência profissional. Penso até em montar um ponto de atendimento lá.

Na cirurgia plástica, outro ramo em que o Brasil tem fama mundial, a presença de angolanas (e angolanos) também remete, não raras vezes, à precariedade do atendimento médico: muitos querem corrigir cicatrizes resultantes de operações malfeitas. O cirurgião plástico Luiz Victor Carneiro Jr. começou a receber angolanos há mais de uma década. Em princípio, eram autoridades, empresários. Nos últimos anos, a classe média começou a dar o ar de sua graça.

— O angolano vê no Rio um espelho de coisas que dão certo. As mulheres querem ser bonitas como as cariocas. Quando fazem prótese de mama ou lipo, almejam um corpo semelhante aos que observam nas praias.

A busca por esse espelho faz com que empresas instaladas em Angola, em especial as do ramo petrolífero, contratem médicos brasileiros para atender seus funcionários, como lembra o cirurgião plástico Allan Bernacchi, outro nome que desponta no boca a boca da ponte aérea da beleza:

— Temos um mercado a ser explorado. Os angolanos ainda enfrentam problemas com a medicina tradicional, imagine com os serviços especializados. E acabam criando uma rede de profissionais: o dermatologista indica o cirurgião plástico, que indica o ortodontista, e por aí vai.

Essa rede de contatos facilitou a vida da secretária Carmen Miranda (o pai morou no Brasil e era fã da cantora), de 32 anos, que chega em fevereiro com R$ 25 mil, 45 dias de férias, um flat alugado em Copacabana e uma agenda intensa de cuidados:
— Vou remover uma cicatriz, aplicar laser no rosto e cuidar do cabelo. Também penso em botar aparelho.

A engenheira Marísia da Conceição, de 25 anos, pesquisou na internet e encontrou uma clínica para fazer um pacote completo: cuidar da pele, retirar manchas e tatuagens e, quem sabe, aumentar o bumbum.

— Em Angola, não tem nada parecido. Quando a gente pensa em beleza, vem logo à cabeça o Rio — diz a moça.

Marísia tem hora marcada com o cirurgião Valter Hugo Chaves, que encontrou na rede uma forma de cativar os clientes angolanos. Em seu site, ele dá dicas de hospedagem e transporte no Rio de Janeiro.

— A tendência desse mercado é crescer cada vez mais — observa.

Dermatologia

Há alguns anos, a dermatologista carioca Katleen Conceição encontrou uma angolana na clínica em que trabalhava. A identificação foi imediata: como ambas eram negras, a jovem pediu para ser atendida por ela. A médica, que já estava se especializando em pele negra, acabou virando uma celebridade entre os clientes do outro lado do Atlântico. Em março, a convite do Ministro da Defesa, Cândido Pereira dos Santos Van-Dúnem, passou uma semana por lá, dando palestras.

— O ministro veio para uma consulta e fez o convite. Brinquei que todo mundo prometia, mas ninguém me levava. Um mês depois, estava com o passaporte carimbado — conta Katleen.

Em Angola, a dermatologista visitou de hospitais a tribos e pôde constatar a precariedade do atendimento médico. Katleen conta que, aqui e ali, já despontam alguns consultórios de estética, que fazem, no máximo, “um peeling de cristal”. Não é à toa que a classe média prefere vir para o Rio e lota a The Skin, a clínica especializada em pele negra da médica Paula Bellotti, no Leblon. Lógico que muitas pacientes pedem botox, peeling e preenchimento, mas o hit do momento são os tratamentos a laser.

— Manchas são frequentes na pele negra. No caso dos angolanos, os hábitos alimentares ainda contribuem para que muitos tenham casos graves de acne. E não é todo profissional que sabe usar ou possui no consultório um laser específico — explica a médica, que já apresentou em Harvard um trabalho sobre o uso de laser em peles negras.

Quando começou a planejar sua primeira viagem ao Rio, Edna Bessa, de 29 anos, formada em relações internacionais, tratou logo de marcar consulta com Katleen, que conhecera por indicação de outras pacientes. Também agendou um pacote completo, com diversos tipos de tratamento, e acrescentou uma cereja ao bolo: a boa e velha limpeza de pele.

— Como o visto demora a sair, a gente vai se organizando. Quando está com a documentação em dia, agenda as consultas. No meu caso, venho de três em três meses. Faço máscaras, peeling, laser e ainda compro os cosméticos, porque em Angola não temos muita variedade — diz Edna. — A limpeza de pele é o retoque final.
Esteticista há 27 anos, Maria José Nascimento descobriu o filão das angolanas há três e só faz a limpeza de pele após a paciente passar por um dermatologista. Muitas contam que, em Angola, é possível espremer cravos e espinhas em salões de beleza, mas o tratamento completo, com direito a suavizar as marcas da acne, inexiste.

— A combinação de esteticista com dermatologista, só aqui — observa Maria José. — As angolanas ficam encantadas, porque fazemos um trabalho específico para elas.


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