quinta-feira, 24 de agosto de 2017
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA comenta sobre FONTAMARA obra prima de Ignazio Silone

Fontamara é considerado um best-seller, a obra mais vendida de um autor italiano no século XX
12/06/2017 às 19:33
     Ignazio Silone é um nome praticamente desconhecido dos leitores brasis. Eu mesma nunca tinha lido nada deste italiano até que o conselheiro Fernando Vita presenteou-me com "Fontamara", um livro extraordinário escritor nos anos 1930 em que o autor descreve de maneira genial a ascensão do fascismo mussolunista a partir da vida de uma aldeia da Província de L'Aquila (Itália Meridional) e da disputa do seu povo pela vida a partir da luta pela água e pela agricultura de subsistência.

   A narrativa é primorosa e o autor se utiliza de uma linguagem regionalista, com muitos termos nativos da região dell'Abruzzo, personagens incríveis, gente que parece que estamos vendo nas telas de Fellini, e isso torna o livro ainda mais atrativo de ser devorado.

    Editado pela Berlendis & Vertecchia Editores, 217 páginas, "Fontamara" é sedutor no sentido de que o leitor vai se colocando no centro da trama como se fosse um daqueles personagens da localidade rural italiana e que ainda vivia na primeira metade do século XX se utilizando de métodos agrários bastante primitivos e uma fé grandiosa em santos da Igreja Católica, em especial, São Roque e na Virgem Santissima.

   E toda uma hierarquia de vida onde existiam os lideres comunitários, as madonas caseiras, o advogado usurpador, o bispo conciliador, o alcaide, o inspetor intervencionista, o alfaiate, o sapateiro, o anarquista, a donzela, a taberneira, com nomes bem peculiares da Itália rural - Zompa, Testone, Berardo, Uliva, Pilatos, Gasparone - todos considerados 'cafonis' um epíteto correspondendo ao 'tabaréu' da região Nordeste do Brasil. Gente simples, humilde, trabalhadora, devota, temente a Deus cujo único objetivo na vida era lutar por sua sobrevivência.

   Alguns  'cafonis' - revela o autor - também se deslocaram para o Novo Mundo - Argentina, Brasil, Peru, etc- em busca de ganhos melhores ou se aventuraram em disputar o mercado braçal em Roma nessa fase transformadora da Europa onde avançavam os fascistas camisas-preta de Mussolini; e o os nazistas de Adolf Hitler.

   Silone, que se chamava Secondo Tranquilli, era filho de um pequeno proprietário de terras e uma tecelã, nascera em 1900, em Pescina dei Marsi, uma das localidades próximas ao lago Fucino no dell'Abruzzio, liderou as primeiras ligas camponesas dessa região e tornou-se diretor de um jornal socialista. Com o advento do fascismo foi, junto com Gramsci, um ativista clandestino, colaborador do jornal L'Unità e co-fundador do PC italiano. Em 1930, durante a perseguição de Stálin divergiu do movimento comunista e dele se afastou.

   Exilou-se na Suiça na época do fascismo e escreveu Fontamara em Davos, em 1933, editado primeiro em alemão e só chegando na Itália, em 1945. É autor de vários outros livros e após a queda do fascismo, entre outros, editou 'A Aventura de um Povo Cristão', em 1968. Faleceu em 1978 e é considerado um autor italiano universal. Seu mais vibrante trabalho, no entanto, é Fontamara, publicado em 22 línguas diferentes e considerado o maior best-seller italiano do século XX.

   E o que essa obra tem assim de mais importante, de mais sedutor: a narrativa, os personagens, a linguagem, a sutileza que o autor usa para descrever momentos dessa comunidade 'cafoni'. É ele quem se expressa no prefácio: "Uma aldeia, enfim, como muitas outras, mas para quem ali nasce e cresce, o cosmo. Toda a história universal passa-se lá: nascimentos, mortes, amores, ódios, invejas, lutas, desesperanças".

   Simples, não! Ah! É nessa simplicidade - os 'cafonis' sequer falavam o italiano, assim como os 'tabaréus' não falam português - que o autor organiza sua obra a partir da vivência dando conta de que na comunidade e região que nascera, crescera e fora entendendo os caminhos da vida, "os anos passavam, os anos acumulavam-se, os jovens tornavam-se velhos, os velhos morriam, e semeava-se, arava-se, adubava-se, colhia-se, vindimava-se. E depois disso. De novo, do começo. Cada ano como precedente. Cada estação como a precedente. Cada geração como a precedente. Ninguém em Fontamara jamais pensou que aquele antigo modo de viver pudesse mudar".

   E a narrativa de Fontamara ganha força, ganha vigor, quando Silone descreve a revolta pela água quando poderosos do fascismo tentam usurpar esse bem precioso para a sobrevivência dos 'cafoni'. O autor então expõe aos olhos dos leitores a água como um bem democrático, de todos, e que não poderia ser usurpada, daí que há uma revolta entre os pobres x os poderosos, o mais rude dos 'cafoni' à frente, (Berardo Viola), um gigante da terra, mas, ao mesmo tempo incapaz de entender o que representava o fascismo, incapaz como muitos dos 'cafonis' de saber que além do domínio da água, havia um dominio da alma, uma Itália diferente daquela que viviam até então, pacifista, rural, coletiva comunitariamente.

   O autor mostra como se dá esse enfrentamento, mescla os sentimentos de amor á terra e sobrevivência, ao amor carnal e Berardo passa a ser o principal personagem diante da paixão que tinha por uma nativa 'cafoni',(Maria Rosa) amor transcendental e que nunca se concretizou de todo.

   Claro que o fascismo vence aos fontamarenses Berardo Viola vai à procura de nova vida em Roma e lá é preso e assassinado. A última esperança de Fontamara sucumnbe. E Silone encerra o texto exatamente mostrando uma reunião dos 'cafoni' com a criação de um jornal (simbolo da resistência)  para exigir Justiça e as disucssões se prolongaram para colocarem um nome no jornal - O Mensageiro, A Tribuna, Trombeta dos Cafoni - e acabaram colocando o nome "O que fazer".

    A expressão "O que fazer" revela exatamente a rudeza dos 'cafoni' os quais, com a morte do lider Berardo, tinhm o propósito de fazer o jornal para pedir justiça, mas, não sabiam "O que fazer", exatamente.

   Baldisiera, um dos personagens comenta: "Se uma cópia do nosso jornal chegar a Roma, qualquer um que o vir, começará a rir", ponderou.

   Outro personagem, Zompa, sugere que a primeira noticia fosse: Mataram Berardo Viola.

   Scarpone concordou, mas propôs um adendo: "Mataram Berardo Viola, o que fazer?"

   Jornal concluido, impresso, reivindicações postas, o folhetim sendo distribuido em San Giuseppe estorou a guerra do empresário (o pode fascista) contra os fontamarenses e os 'cafoni' pergunaram uns aos outros: "O que fazer".

    Mas, o que está havendo em Fonarama, arqgui um deles.

   - É uma guerra contra os cafoni e o jornal", gritou Cipolla, dizendo que "quem pode se salvou".

   Os fascistas exterminaram parte da comunidade de Fontamara e Silone encerra: "Depois de tantas penas e tanto luto, de tantas lágrimas e tanta mágoa, de tanto ódio, de tantas injustiças e de tanto desespero, o que fazer?

    O livro é um retrato da domincação fascista na Itália, anos 1930, a partir dessa pequena comunidade do interior.