segunda-feira, 25 de setembro de 2017
Colunistas / Música em Cena
Maurício Matos

A música, a política no Brasil e a corrupção

A música sempre foi muito critica em relação ao cenário politico nacional
08/07/2017 às 10:55
  Não é de hoje que o país vive atolado num lamaçal e as músicas do nosso cancioneiro popular já nos mostravam isso há algum tempo. A gente é que nunca quis enxergar, ou melhor, nunca quis ouvi-las. São tantas as canções que precisaria de um livro para documentá-las, daí ter separado algumas do meu gosto, para mostrar a você, leitor, como nossos compositores – pessoas, normalmente, com sensibilidade um pouco mais aguçada – já sacavam toda essa sujeira que existe em nosso país desde o descobrimento.

  Formado no final dos anos 60 do século passado, o grupo carioca 'Originais do Samba', cuja formação inicial contava com o ‘Trapalhão’ Mussum (1941-1994), ganhou notabilidade no cenário nacional com a música ‘Se gritar pega ladrão’. O refrão da canção serve perfeitamente como fundo musical para toda a classe política brasileira. “Se gritar pega ladrão/não fica um, meu irmão. Se gritar pega ladrão/não fica um”.

   Assistindo aos últimos acontecimentos ‘políticos-policiais’, temos a impressão de que a classe política assalta os cofres públicos desde a época de Pedro Álvares Cabral. E nossa inércia e apatia em relação a tudo isso podem ser explicadas através da regravação da música ‘Gotham City’ (Jards Macalé/José Carlos Capinam) feita pela banda baiana 'Camisa de Vênus', cujo um dos versos fala que aqui “tem um sambinha/tem futebol/e tem Carnaval”, ingredientes perfeitos para anestesiar toda população.

   E por falar em 'Camisa de Vênus', a música ‘País do Futuro’ – título bastante sugestivo para o nosso Brasil – é um deleite para quem quer uma explicação para toda essa corrupção que nos assola. Um trecho da letra retrata, independentemente da época, como o povo é roubado. “Todo dia lhe oferecem/sempre o melhor negócio/vão levar a sua grana/vão lhe chamar de sócio”. 

    O refrão, então, é uma espécie de ‘vale a pena ver de novo’, um ‘déjà-vu’ e, ao mesmo tempo, um desabafo de quem tem um mínimo de discernimento que aqui, ‘esquerda’ e ‘direita’ são apenas os lados por onde passa a corrupção. 

   “Nós vamos outra vez/pro fundo do buraco/você não tem vergonha/e eu já não tenho saco. Estamos outra vez/no fundo do buraco/você não tem vergonha/e eu já não tenho saco”.

  Se vivo estivesse, Cazuza (1958-1990), autor da emblemática música 'Brasil', não teria dúvidas que o país tem como sócios as grandes empreiteiras, frigoríficos e bancos e que são eles quem pagam aos políticos para que a gente fique assim, sem saúde, educação, segurança...“Brasil, mostra tua cara/quero ver quem paga/pra gente ficar assim/Brasil, qual é o teu negócio?/O nome do teu sócio?/Confia em mim”.

    Contudo é a genialidade do paraibano Genival Lacerda, forrozeiro autêntico, que nos faz enxergar que tudo isso que acontece não é culpa só da classe política. Penso que muito pior do que os políticos, somos nós, eleitores. A música ‘E nós aqui forumbando’, regravada em parceria com o músico baiano, Marcelo Nova, sob o nome de ‘A gente é sem vergonha’, chega a ser didática em relação a um mea-culpa que nunca fizemos. “A gente é sem vergonha/a gente é que não presta/O mundo pegando fogo/e nós aqui na festa/É bomba é bomba/é bomba é foguete/é pau é pedra/é bala é cacete/E a gente aqui encangado/que nem dois siris/e a gente aqui macumbando/pro santo subi". Autoexplicativa.
          
    Se tem jeito nosso país? Acho que não. Precisaríamos de umas 100 operações Lava Jato e, ainda assim, não sei se daria conta. É muita roubalheira, muito cinismo, muito foro privilegiado. Há algum tempo, nosso saudoso Raul Seixas (1945-1989), com seu estilo irônico, indicava como poderíamos resolver esses problemas. Não custa tentar. “A solução pro nosso povo eu vou dar/Negócio bom assim ninguém nunca viu/Tá tudo pronto aqui é só vim pegar/A solução é alugar o Brasil/Nós não vamos pagar nada/nós não vamos pagar nada/é tudo free...”