Colunistas / Música em Cena
Maurício Matos

A morte do guitarrista Karl Hummel e a imprensa

Depois de desmentidos da banda e da imprensa, Karl Hummel veio realmente a falecer no último dia 8, no Hospital das Clínicas de Salvador
11/06/2017 às 14:03

  Há 15 dias, trouxe para a coluna ‘Música em Cena’ o debate sobre o rock estar morto ou não. Quis o destino que essa semana o ritmo sofresse mais uma baixa com a morte do guitarrista Karl Franz Hummel, que deixou os fãs do ‘Camisa de Vênus’ atônitos. Primeiro, pela partida prematura do músico, aos 58 anos, e segundo, pelo desencontro de informações sobre o seu falecimento.

   No último dia 7, o facebook oficial da banda informara que o artista havia morrido e boa parte da imprensa local e nacional ‘embarcou’ nessa - sem nenhuma apuração com a família, médicos, hospital, nada - e passou a divulgar a morte do guitarrista. Foi preciso a mulher do músico desmentir, através também das redes sociais, lamentando que “alguém publicou ou adiantou a situação do nosso Karl. Respeitem a minha dor e da família. Ele está respirando com ajuda de aparelhos...”.

   Aí vale a pena fazer um parêntese para falar um pouco sobre jornalismo. A velocidade da internet - e, consequentemente, o grande volume de informações produzido diariamente - está fazendo com que nós, jornalistas, percamos um dos princípios básicos da nossa profissão, a investigação. Sem apuração não tem como divulgar uma notícia, é claro. Não se faz jornalismo ‘dando CTRL C + CTRL V’. Fecha-se o parêntese.  

   Depois de desmentidos da banda e da imprensa, Karl Hummel veio realmente a falecer no último dia 8, no Hospital das Clínicas de Salvador, onde estava internado há 20 dias em decorrência de problemas no fígado. Chamou atenção a nota oficial do 'Camisa de Vênus', quando da suposta morte do músico, pela pouca importância dada ao guitarrista. 

   “Karl, com sua energia quase inesgotável e performance de palco, ajudou a sedimentar o nome da banda em todo o Brasil. Os bons momentos que vivemos juntos jamais serão esquecidos”. É óbvio que isto é muito pouco para o que ele representou para o 'Camisa'.

   Longe de ser um músico de técnica refinada, Karl Hummel despejava feeling em sua guitarra ‘Gibson Les Paul’, ao tocar no estilo ‘Pete Townshend’ - guitarrista da banda inglesa ‘The Who’ -  rodando muitas vezes o braço a cada acorde tocado. Entretanto, ele foi muito mais do que isso. Foi um importante compositor do grupo e coautor de inúmeras músicas, como ‘Metástase’, ‘O Adventista’, ‘Meu Primo Zé’, ‘Hoje’ ‘Simca Chambord’, ‘Deus Me dê Grana’ ‘Só o Fim”, dentre outras, que fizeram a banda ter a fama e o sucesso que tem. Não é justo resumir a participação de Karl no 'Camisa' apenas por sua “energia” e “performance de palco”.

   Ele foi cofundador do grupo, assim como Marcelo Nova, Robério Santana, Gustavo Mullem e Eugênio. Sim. Poucas pessoas sabem, mas Eugênio foi o primeiro guitarrista solo do 'Camisa de Vênus'. Nessa primeira formação, Gustavo tocava bateria e, com a saída de Eugênio, assumiu a guitarra, deixando a bateria para Aldo Machado, último integrante a entrar na chamada formação clássica da banda, que durou de 1980 a 1987, quando o grupo se dissolveu após a gravação e a turnê do disco 'Duplo Sentido'.

   O guitarrista também fez parte de todas as formações do 'Camisa de Vênus', exceto essa atual capitaneada pelo vocalista Marcelo Nova e pelo baixista Robério Santana. Infelizmente, uma briga judicial envolvendo o nome do grupo provocou uma cisão entre os músicos. Por determinação da Justiça, Marcelo passou a ser o detentor da marca e Karl Hummel e Gustavo Mullem ficaram proibidos de se apresentar com o nome da banda, como vinham fazendo ao lado do vocalista Eduardo Scott (ex-Gonorreia) no lugar de Nova.
 
   Se você, leitor, tinha esperança de algum dia ver a formação clássica do 'Camisa de Vênus' tocando, esqueça. Nas inúmeras reuniões realizadas após o fim do grupo, o baterista Aldo Machado sequer foi convidado a participar. Se já era pouco provável com todos vivos, agora, com a morte de Karl, ficou humanamente impossível. O refrão de um dos maiores sucessos do 'Camisa' explica perfeitamente toda esta situação. “Ô crianças, isso é só fim”!