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14/02/2017 às 11:54

NO TEMPO DE MENINO: O DIA EM QUE FIQUEI NU na praça Luis Nogueira

Fiquei nu mas não perdi a pose, coloquei as moringas no passeio e levantei o short seguindo a viagem

Tasso Franco

   ​Quando eu era menino em Serrinha nos idos dos anos 1940/1950, o comércio local se situava em parte da praça Luis Nogueira, Rua Direita, Beco da Lama e Federação, Manoel Novaes, parte da Barão de Cotegipe e da Araújo Pinho (área do Mercado Municipal) e parte da Jonas Carvalho atrás da Igreja Matriz de Senhora Sant'Anna. 

   Meu pai possuia a Tipografia, Livraria e Papelaria O Serrinhense, hoje, onde é uma ótica, e ao lado direito de sua loja ficavam o Bar e Sorveteria Itaúna, de Edmundo Veloso Costa, a loja de pneus de Sêo Vilson (Wilson Freitas) e a Farmácia do Povo de Sêo Cosme; e do lado esquerdo a casa de peças dos irmãos Almiro e Zé Bacelar, a casa de Antonio José jornalista correspondente de A Tarde e a farmácia de Sêo Paulino Santana (Biêta). 

   Em frente, onde por alguns anos foi a sede do Banco Econômico, era a loja de Sêo Demá, autopeças e venda de querozene, e neste corredor, as lojas de Sêo Miguelzinho, de João da Ema, Sêo Henrique e Sêo Zé Faustino. Na esquina da entrada da Araújo Pinho ficava a loja de calçados de Sêo Juca Campos.

   Esse nome aparentemente pomposo da loja de meu pai tinha o seguinte significado: Tipografia é a conjugação de tipo (peça de chumbo usada nas antigas gráficas) e grafia (escrita). Ou seja, tipo que escreve ou casa que produz impressos - livros, jornais, certidões, notas fiscais, etc; Livraria - porque vendia livros didáticos, na época, de Olga Pereira Mettig e de literatura, além de dicionários, almanaques, revistas, etc; e Papelaria - porque vendia papéis - oficio, cartolina, talões de recibos, pautado, etc; O Serrinhense, por ser de Serrinha. 

   Nome todo: Tipografia, Livravia e Papelaria O Serrinhense. Mas, todo mundo da região conhecia como "O Serrinhense" porque era a a úncia tipografia da região Nordeste, depois de Feira, e atendia serviços gráficos (notas fiscais) para Coité, Valente, Santaluz, Euclides, Tucano, etc.

   Então, desde criança eu frequentava "O Serrinhense" como menor aprendiz, assim, hoje, denomina-se essa atividade, mas, na época,era uma coisa comum entre as familias, os pais colocarem os filhos para aprenderem o seu oficio. Ou seja, como em Serrinha, as formações profissionais técnicas e acadêmicas não existiam, só quem podia estudar em Salvador tinha essa oportunidade, a prática era os pais ensinarem a profissão (que se chamava oficio) aos filhos. 

   Eu aprendia o oficio n' O Serrinhense, Cândido na loja de Juca; Ferreirinha na elétrica de Sêo Nozinho; Nilson, na loja de tecidos de Sêo Zé Faustino; Serrador e Zé Potó a vender peças em Sêo Demá; Mariano a aviar receitas populares com Sêo Paulino; e assim, por diante. 

   Mas, é claro, essa regra foi sendo quebrada na medida em que a cidade cresceu nos anos 1960/1970, abriu-se a BR-116 com Salvador e muitos de nós fomos estudar na capital. 

   O que importa é que, quando menino, aí quando eu tinha 10 a 11 anos, na beira de entrar pro Ginásio, meu pai dizia: "Você, de tarde, não vai jogar bola. Vai pro "O Serrinhense" me ajudar".

   E lá ia eu, retado da vida, fazer trabalhos auxilires na tipografia - intercalar papéis de notas fiscais, colar talões de recibos, buscar água de beber na casa de minha avó Leonor (Filhinha) etc. E, quando fiquei mais forte, puxava a alavanca da máquina de cortar, a guilhotina da gráfica. 

   Meu pai arrumava os papéis, ajustava no ponto do corte, prensava e liberava a alavança da máquina para mim e dizia: - Agora, puxe. E eu puxava e a lâmina afiada cortava os papéis. Meu pai recolhia as aparas, a alavanca voltava ao ponto zero, era travada com um sepo e começava tudo de novo.

   O trabalho mais técnico era alcear (intercalar) as folhas impressas das notas fiscias. Naquela época, o talão grande (20x30cm) da NF tinha 4 vias: uma parda (que ficava no talão), uma branca (a nota do cliente), uma amarela (que ia à coletoria fiscal) e uma rosa (do contador) e essas folhas, cada qual tinha uma espessura, sendo a do cliente a de gramatura mais incorpada. A do fisco e a do contador eram de papéis finos, o que exigia mais atenção do impressor e do alceador.

   Detalhe: salvo a nota que ficava no talão (a tipo papel jornal) todas as outras vias eram picotadas numa máquina a pedal, trabalho que eu também fazia, eventualmente. E o picote tinha que ser certo (não podia ficar torto) para fazer os destaques de envios aos clientes, ao contador e a coletoria. Era uma mão de obra infernal. 

   A região não tinha comerciantes de grande porte e a maioria mandava confeccionar entre 5 e 10 talões cada qual com 50 folhas e todas as vias eram numeradas também com numerador (uma maquineta) manual. Ou seja, as folhas brancas, 1,2,3, até 50...de 51 a 100...de 101 a 150...de 151 a 200, etc - e depois eram intercaladas com as outras folhas. Para montar o talão, juntavam-as as folhas 1-1-1-1 (branca, amarela, rosa, jornal), 2-2-2-2, 3-3-3-3 até 50-50-50-50 e assim por diante. 

   Depois, meu pai vinha e conferia se estava tudo certo e só então confecionava o talão primeiro suvelando as folhas (usava-se uma peça chamada suvela (um pino pontiagudo) por onde passa um barbante encerado.Uma espécie de costura do talão. Só depois é que surgiram as colas especiais que substituiu esse trabalho artesanal. 

   No "O Serrinhense", havia um operário, Gilberto Nery que era craque nesse matéria. Chama-se encadernador, profissão, hoje, em extinção, salvo para trabalhos em livros antigos. 

   Depois de confeccionados os talões vinha a parte burocrática. O cliente levava a encomenda e assinava um documento onde assegurava ter recebido cinco talões de NF numerados de 001 a 500, impressos no "O Serrinhense". Meu pai dava entrada na Coletoria Fiscal desse documento e o cliente tinha que levar os talões para serem perfurados. Houve uma época em que também eram selados. Fazia parte do controle do Estado para recolhimento do ICMS.

   Na verdade, "O Serrinhense" era uma pequena indústria e tinha 6 operários - Gilberto Nery, Lafayete Coutinho, Lilito Coutinho, Rafael, Zelito, o filho de Sêo Zélis e Elisa. E era também uma escola porque por lá passaram todos os gráficos antigos da Serra - Agiu,  Barata e seus irmãos, Pio e outros, hoje proprietários de gráficas locais.

   Todas as máquinas eram manuais. Não havia energia elétrica na cidade. Tinha uma impressora que era acionada por um motor a diesel (fazia uma zoada enorme) através de uma polia num eixo do motor e na roda da máquina. As composições dos textos eram manuais via componedores de aço e postas em chapas. As caixas com os tipos (todo alfabeto e os acentos) obedecia a escola norte-americana. O comércio e a indústria locais funcionavam das 8h às 12h; e das 14h às 18h. Quem regulava o expediente era o sino da matriz.

   Agora, minha época de menino não se resumia apenas a estudar e aprender a trabalhar. Eu também brincava de jogar bola, todas aquelas outras brincadeiras da época - pião, ferrinho, gude, etc - curtia a matinée do cinema aos domingos, vendia e trocava gibis e quando comecei a freqeuntar o Ginásio, a partir dos 11 anos, dar minhas paqueradas nas meninas da Serra.

   Eu curtia também e bastante uma rinha de galos que havia no fundo do Bar Itaúna, época em que briga de galos era legal. Meu pai nunca gostou de jogos, nem futebol, mas, tinha amigos que adoravam briga de galos, como Osório, Romão e Manoel Cotó. 

   Eu ia por curiosidade assistir as brigas dos galos porque não entendia nada dos termos técnicos que os 'galistas' falavam na hora dos embates, dos técnicos dos galos que ajustavam os esporões e borrifavam os contendores a cada round, e vibrava bastante quando via um galo surrando o outro, sangue espirrando na rinha e os 'galistas' exaltados narrando as contendas.

   Nas horas que tinha menos trabalho na tipografia eu me mandava pelo fundo da gráfica, pulava o muro e lá ia assistir. Meu pai ficava azedo e perguntava aos 'meninos' (os operários) "vocês viram Tasso por aí". Ninguém cagoetava, mas, sugeria que eu poderia estar na rinha. Meu velho descia por uma porta do reservado do bar de Veloso e me pegava no flagra. "Vamos pra tipografia" gritava e eu ia de cabeça baixa.

   Nunca ouvi meu pai dando um nome feio, uma porra, por exemplo. Jamais. De vez em quando batia em minhas canelas com ums ripas de madeira que serviam de suporte das resmas de papéis. As resmas vinham de Salvador, importadas até da Alemanha, papéis brancos de 1mx60cm que eram ajustadas (ou amarradas) com essas ripas e tiras de flandres, e que chegavam a Serrinha de trem. 

   Certa ocasião eu estava paquerando uma menina da familia Nogueira e quando ia a casa de minha avó buscar água em duas moringas, dava uma parada num oiti da Luis Nogueira e ficava naquele namorico à antiga, só olhando um ao outro de pertinho, de vez em quando dando um beijinho na face e carícias nas mãos. 

   E, numa dessas namoradas demorei de chegar na tipografia. Meu velho então perguntou a tia Dalva Paes, que era a caixeira da loja, da Livraria, quanto tempo eu havia saído: - Já tem mais de 1 hora - dizia tia Dalva e ele ia no meu encalço. E lá estava eu no namorico.

   Já viu né, quando cheguei na tipografia, as ripas comeram nas minhas canelas e eu sai gritando pelo meio dos operários e estes morrendo de dar risadas. Daí que Lafaitete (o Lilito) colocou meu apelido de Z..... em alusão a tal moçoila dos Nogueira. Não vou dizer o nome dela porque seria indiscreto.

   Abro um parênteses para falar de Tia Dalva. Era irmã de minha mãe Zilda Paes  e tinha mais três irmãos, todos moravam na Serra: Celina, Aderaldo e Álvaro. Em matéria de carência de humor, ninguém batia na tia Dalva. Era pior do que Sêo Lunga. Se alguém chegasse na loja e pedisse para trocar uma nota de dez cruzeiros ela respondia: - Aqui não é banco meu filho. Se alguém fosse trocar um livro por algum defeito ela bradava: - Depois que v usou vem querer trocar livro. Troco não. Quando o cliente pechinchava ela sempre dizia secamente: Não. 

   Tabalhou com meu pai até a aposentadoria. Nunca casou. Nunca saiu da Serra. E viveu mais de 90 anos de idade, solteirona, turrona e feliz ao seu modo.

   Em outra feita, foi buscar água na casa de minha avó, que ficava onde hoje é a Dep Vip de dona Nalvinha, enchi as duas moringas e vinha todo faceiro pelo jardim da Luis Nogueira e quando passava em frente ao Cartório de Donas Zina e Alice Hortélio, Luis Pedrosa (Gatão) veio por detrás e puxou meu short até os pés. 

   Eu só vi o povo no cartório me arreliando, dona Alice e dona Zina em frouxos de risos vendo aquele menino nu, com o pinto balançando, em plela Luis Nogueira, às 3 da tarde.
 
   Como não ia quebrar as morinhas jogando-as no chão para suspenter o short, colocei-as devagar no passeio para não derramar a água, e levantei o short seguindo viagem "O Serrinhense".


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