Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Por trás da linha de escudos

Um filme necessário para a época do Brasil atual, para que em outubro, não choremos pelo leite derramado.
09/07/2018 às 10:15
Por Trás Da Linha De Escudos, de Marcelo Pedroso, Brasil, 2017. O diretor-documentarista é engajado em ideias de esquerda, e talvez por isso, o filme tenha um olhar exclusivo para este lado partidário, todavia quem permitir-se em conferi-lo sem algum pré -julgamento estabelecido, certamente observará mais que vertentes políticas ambíguas, e sim com andas as pernas da segurança nacional, com o PCC, inclusive, sob investigação na operação lava-jato como um dos principais propinadores de vários políticos, em Brasília: trocando em miúdos, ou talvez em graúdos, o próprio sistema de drogas brasileiro, ou os seus cabeças, banca o sistema político brasileiro, porém como isto anda ainda sob investigação pela polícia federal vou ater-me a parar por aqui até que estas evidências, escancaradas, tomem corpo e a verdade venha a tona: nua e crua. 

Todavia voltemos ao documentário , podemos escrever que temos, de início, um protesto contra uma instalação de edifícios "Torres de luxo", no Recife. O batalhão de choque, então, é chamado para espalhar a multidão e acabar com o protesto. 

Um sujeito acaba resistindo, e por isso leva dois potentes jatos de gás lacrimogênio de uma distância muito próxima, de modo que acha que fica cego, porém só acha mesmo, restaurando sua visão minutos depois com seus olhos vermelhos. Após as reais cenas do protesto, já nos aparamos com um take, de plano médio na grande ocular, de um homem que em breve saberíamos que seria o tenente daquele pelotão de choque do protesto. 

O documentário se inicia de fato quando esta conversa surge: o tenente com o diretor do filme, e não se trata de uma conversa de botequim, mas sim de uma entrevista onde o entrevistador-diretor investiga o “outro lado” dos protestos; o lado inquisidor da ordem e da moral: o da polícia ou da seguridade nacional. Quando cessam as perguntam ao tenente, o documentário embrenhasse a relatar o que os soldados daquele protesto têm a dizer, ou melhor, o que eles pensam agindo do outro lado, ou no lado da “lei”, esta na qual o diretor deixa evidente, que pode ser injusta. 

Mas isso é óbvio; então para sua obra não torna-se rasa narrativamente, o documentarista percebe a necessidade em adentrar-se no mundo de um pelotão de choque da policia militar, esta no caso, de Pernambuco. Antes disso, o diretor deixa claro aos policiais , que estavam naquele fatídico protesto, e por sua surpresa alguns soldados o reconhece, entretanto ainda assim, permitem a sua imagem e testemunho na obra fílmica.

Nasce assim o corpo narrativo do filme onde, minuciosamente, a obra tenta pegar a visão dos soldados na hora "H". Mas porque o filme foi vaiado no final? Particularmente acho que existiu um “bundamolismo”, no sentido do filme narrar, em alto e bom som, de que lado estaria: da polícia ou dos protestantes (povo); tendendo a ficar mais ao lado da polícia. 

Sob um olhar um pouco mais especializado, tendemos a anular essa visão dos “espectadores comuns”, e analisar o documentário de uma visão que o diretor quis, ou queria passar. Oras, o cara que fez o filme: Brasil S/A, premiado em Berlim não iria ao desencontro de suas ideologias e filmografia, principalmente. Lógico, e isso sob um olhar mais apurado, que não existiu nenhum “puxa-saquismo” sob o lado da polícia de choque, mas uma tentativa de entendimento como o “outro lado” funciona e pensa na hora do conflito, e lógico que tal resposta não viria de soldados ou tenente, mas sim de uma posição bem acima deles: o status quo da república federativa do Brasil, onde um dos soldados nos lembra de que, inicialmente antes de governos ditos como democráticos, a idéia de ordem e bons costumes vem de uma disciplina militar; não a toa tivemos o golpe da ditadura para restabelecer a ordem no país naquela época, e hoje, alguns milhares concordam que tivemos um golpe estabelecido com a queda do governo Dilma, mas quem está no poder é seu vice, então fica difícil fazer algum tipo de comparação entre o golpe da Ditadura e o tal “golpe” do Temer, já que este era seu aliado e porquausa dele e do seu partido, também, a Dilma conseguiu reeleger-se. 

Achei corajosa a ideia do documentário em abordar o universo de uma polícia de choque, e isso com direito a conhecermos as suas armas letais e não letais, tais como: spray de pimenta, gás lacrimogênio, granada, estratégias de defesa em um confronto, e até o motivo dos policiais serem resistentes as armas tóxicas que usam em combate. O diretor quis mostrar que, para ganhar do seu opositor, é necessário antes se igualar a ele: psica e fisicamente (ou com armas à altura). Um filme necessário para a época do Brasil atual, para que em outubro, não choremos pelo leite derramado.