ter?a-feira, 25 de fevereiro de 2020
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Diogo Berni

CINEMA: O Apartamento e os dilemas morais do Irã, por DIOGO BERNI

Veja também nosso comentário sobre o Doutor Estranho
11/02/2017 às 12:23
   O Apartamento, dirigido e roteirizado por Asghar Farhadi , Irã/França, 2016. Em mais ano o cinema iraniano será muito bem representado no principal prêmio da indústria cinematográfica do mundo: O Oscar 2017. Em recente entrevista no Festival de Cannes o diretor, que levou dois prêmios por lá como melhor roteiro e ator por Shahab Hosseini, disse que os intelectuais no Irã ainda são muito desmotivados a fazerem suas profissões e por isso escolheu como tema dessa vez um grupo de teatro que encenava a peça O Caxeiro Viajante, uma analogia a falta de espaços e fomento para quem é da área e completa: “ 

   Quis abordar o universo teatral porque este ainda é pouco apedrejado se fizermos uma comparação com o cinema”, afirma o diretor. 

   A obra fílmica também não se esquece dos dilemas morais, machistas e sociais do seu país, e está tudo lá em tela, transparente como um copo d´água, isso é se você conseguir algum copo. 

   O filme começa com uma cena catártica com o principal casal de atores da peça tendo que sair do seu apartamento sob um aviso de que o prédio estava por cair ou a cair, já que suas paredes encontravam-se rachadas. 

   Um outro membro da trupe teatral consegue o tal apartamento que dá nome ao filme. Sem muita escolha eles acabam por aceitar o rápido apartamento achado por seu colega ator. O imóvel estava vazio e a dona sumira sem dar notícias. Mesmo estando tudo muito simples , fácil e estranho ao mesmo tempo o casal faz a mudança para o local. 

   Eis que alguns dias após a mulher é atacada quando tomava banho e sofre um acidente, banal é verdade, mas que fica com uma touca até os últimos 122 minutos da obra.

    Mas que o acidente físico o que pega mesmo é trauma moral e psicológico tanto para quem fora bulinada pelas costas , mas principalmente para seu marido que mesmo sendo artista prega em sua cabeça que teria que desvendar esse mistério e descobrir quem fez isso com sua esposa , mas principalmente com ele, afinal o fundamentalismo de qualquer tipo de coisa não é o pior dos males humanos, quero me referir ao idealismo extremo de qualquer coisa que seja, e pode ser no política, esporte ou qualquer coisa a mais. 

   Fato é que a partir dessa revolta camuflada e blindada por parte do protagonista da trama é que temos um jogo de caça "gato ao rato". O filme, que dá uma pincelada sobre tudo que vivemos sob a pretexta  vingança do marido a alguém que fez mau a sua mulher, mesmo sem saber quem era ela ou sabendo, mas o tema de vingar-se de algo ou alguém: ou por vontade própria ou pra ficar “bem na fita” com a sociedade pode ter consequências desastrosas no final. Enfim acho que o filme nos permite mostrar o quão anda doente este planeta pelo uso da autoridade de quem se acha para  permitido a fazer isso.  
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   Doutor Estranho, dirigido por Scott Derrickson, EUA ,2016. De início obrigo-me a rever meus conceitos acerca os outros super-heróis da Marvel. Pra quem ainda não está familiarizado, todos sem exceção personagens criados pela Marvel são oriundos dos HQS ou mais popularmente gíbis ou estórias em quadrinhos, como queiram chamar. 

   Doutor Estranho é também um deles, mas só que não é tão conhecido como, por exemplo, o Hulk ou o Homem-Aranha. O HQ do Doutor Estranho surgiu no início da década de 1960 e não bombou assim como os outros de modo que o ator Benedict Cumberbatch teve toda a liberdade em fazer o papel de super-herói do quase desconhecido héroi ,e talvez por isso, se deu ao luxo de criar seu próprio personagem sem muito preocupar-se com aquele do HQ longínquo que quase ninguém, conhecia, a não ser os ávidos Nerds da época e de plantão, número este pequeníssimo em comparação ao resto da bilheteria que o filme arrecadou no final de dezembro do ano passado. 

   O protagonista é um médico que, alias um neurocirurgião cheio da grana e ego que, após um acidente de carro perde a sensibilidade das suas mãos. Destronado como o melhor cirurgião da sua região depois do acidente o doutor vai ao Himalaia quando sabe que um paciente seu voltara a andar com a cura que teve por lá. 

   Ainda incrédulo o doutor estranho pega sua mochila , deixa sua girlfriend e vai ao pico em busca da cura. Lá chegando encontra uma monja casca-grossa que a trata como se fosse um dos vários enfermos que lá vão e já de saco cheio de tanta gente pedindo ajuda ela o esnoba e o manda para ele dar o fora, no caso que volte aos EUA.

   Doutor Estranho persiste e dorme noites ao relento em frente à porta do mosteiro não desistindo de ter novamente a firmeza das mãos que lhe deram tanto prestígio como dinheiro, enfim o cara não desiste de voltar a ser o que era: um respeitado neurocirurgião. Vendo a sua persistência a monja, que na real teria que ser um monge pelo HQ, pergunta o que ele quer e ele  então conta sua história e fala que não sairá sem suas mãos curadas. 

   A monja vê a soberba do cara aí e diz: “ No way”, ou em bom português: assim , sem chances. O Doutor Estranho capta que teria que se transformar por dentro para aí sim ter algum tipo de chances para sua cura. Mergulha-se internamente em suas dificuldades e virtudes lendo como nunca tinha lido nem mesmo na época do seu doutorado; lia livros específicos na biblioteca do monastério e assim descobre que sua cura poderia ser o mínimo que poderia aprender.

    O ponto chave do filme era o de controlar o tempo e virar imortal, coisa bem mais importante que uma simples cura de mãos e status para ser quem era antes; na verdade o doutor já estava predestinado a ser uma coisa bem maior : o guardião do planeta Terra contra um inimigo usurpador que ansiava por dominar o tempo e assim conseguir a imortalidade para acabar de uma vez por todas com esse papo de morte. Todos que se unissem a ele teria a imortalidade , mas com um dilema ou missão: acabar de uma vez por todas com todos os universos possíveis para que só eles pudessem controlar o tempo e assim terem as suas imortalidades intactas. 

   A sua guru era contra isso de exterminar todo o universo com o planeta Terra e seus habitantes dentro, mas tinha uma contradição nela também: é que para proteger a Terra contra seu inimigo tirano ela própria protege-se se tornando imortal para ter mais força para lutar contra seu inimigo. Quando sabe desse fato o Doutor estranho fica boladão com sua monja e sua cabeça meio que despiroca e pergunta pra ela: “ Pôxa senhora monja, eu aqui lutando com você contra a imortalidade e agora você vem com essa que é imortal também”. 

   O inimigo da monja e ávido usurpador de universos, sejam esses paralelos ou não, diz: “ Tá vendo aí Doutor Estranho, quem não queira a imortalidade agora se diz imortal para bens maiores; mentira dela. Ela é imortal por vaidade e não por querer defender a Terra de mim”. 

   Mas a missão que era destinada a monja, que era defender a Terra, já estava passando para outra pessoa: o Doutor Estranho, e ele , ansiando ser imortal ou não entende o recado e vai a batalha contra o inimigo dos universos alheios. O final vocês já podem prever: uma baita luta entre eles com imagens "estrambolicamentes" surreais com universos se encontrado e desencontrando a todo instante, mostrando que tempo e morte são relativos , ou quase isto. 

   Um filmaço de entretenimento que ainda faz pensar em física e química quântica para sairmos das nossas rotinas ordinárias.