quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

DEPOIS DA TEMPESTADE: coisas comuns da vida no cinema

Notas sobre Stranager Things, da BetFlix
14/01/2017 às 11:34
  Depois da Tempestade, dirigido, roteirizado e editado pela mesma pessoa: Hirokazu Koreeda ,Japão, 2016.A poesia você não encontra por aí e a toda hora. E pegar isso e colocar em tela é tarefa difícil de modo que quando os filmes chegam a esse patamar de vivacidade fantástica da existência humana, realmente quando vejo algo que me transforma tenho prazer em escrever e compartilhar para ter o máximo de número de pessoas que possam desfrutar também desse privilégio de filme. 

   Agora vai ter uma coisa que vocês vão achar estranho: é que é um filme dificilíssimo de resenhar por abordar o ordinário de maneira extraordinária, isto é, colocar em forma poética o cotidiano das ações que fazemos todos os dias, como escovar os dentes, pentear o cabelo, brigar com irmão, irmã, mãe, ter ou não trampo, ter contas a pagar, etc. 

   Mas vamos a uma breve análise: de protagonista tínhamos um detetive particular sem muito prazer para tal oficio. Esse cara tinha um filho e era divorciado. O filme passa-se poético por acompanharmos os fatos ordinários da vida, como por exemplo, comer com a mãe ou atender a um telefone. Tem que ver pra sentir este maravilhoso filme japonês, recomendadíssimo e ainda em cartaz nos melhores cinemas, então não vacile e usufrutua-o.
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   O Que Fica, dirigido e roteirizado pela talentosa Daniella Saba, Brasil-França, 2014. Esta manhã vi um curta super legal e quero compartilhar com vocês. A história inicia-se com um senhor se arrumando para visitar alguém. 

   Até então não sabemos quem e porque. A câmera foca em um cachorro tipo linguiça e esguio com uma cadeirinha nas suas patas traseiras. O senhor caminha elegantemente com o cão nas ruas de Paris até que chega ao seu destino: a casa da sua filha que não vê há bastante tempo. 

   A moça , irritada, indaga-o por sua presença já que deixara ela e a sua mãe, recém morta, desde que a moça tinha dez anos de idade, isto é, há um tempão. A visita é curta pelo clima hostil , mas o senhor sai literalmente à francesa deixando o Javier no apartamento após uma xícara de café. Sua filha só se dá conta da saída do seu pai tarde demais e este some mais uma vez sem deixar rastro, como sua melhor especialidade.

    A já quarentona agora se vê morando com um cão aleijado e mais uma vez com uma puta raiva do pai, raiva latina e portenha já que era de lá. A obra se desenvolve nesse presente de grego: o cão Javier. Os dias passam e ela não consegue se livrar do último presente do pai, e existe algumas menções metafóricas nesse cão aleijado, ou seja, também tinha um recado ter deixado aquele cão por lá, tais como: chamar a filha de inútil por nunca ter tido coragem de fazer o que queria por quasa da mãe e voltar para a Argentina, ou o próprio estado físico deteriorado da mãe em sua fase terminal ou até mesmo dele: da sua doença, ou seja, o presente pode ter sido também uma lembrança de despedida que o pai quis dar a filha e explicar o porque tinha as abandonado . 

  Em outras palavras aquele cão aleijado era nada menos que o próprio pai que através do cão aleijado metaforicamente se expõe em seus últimos dias de vida como um humano desprezível, doente e acima de tudo incapacitado de cuidar da esposa e filha. O foco ou recado do filme é o cachorro Javier e a capacidade poética do recado é algo lindo de se ver, adorei pra valer. 
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Stranger Things, da NetFilx, EUA, 2016.

   A série é ambientada no estado da Indiana no ano de 1983 e logicamente repleta de menções a década de 1980. A cidade chama-se Hawking: uma homenagem ao criador ou descobridor da física quântica: Steven Hawking. Quatro loosers de onze anos compõe os personagens que darão movimento ao seriado, mas antes vamos a alguns detalhes técnicos; 

   A NetFlix acaba de soltar alguns dados interessante acerca o seriado dos anos oitenta: Foi o terceiro mais visto da história do serviço de streaming, colocação esta relevante, tendo em vista que tevê a cabo é coisa do passado. 

   Para a escolha dos dois personagens principais: Mike e Eleven foram testados respectivamente trezentos e setecentos atores mirins para os papéis do líder do grupo de loosers da escola e da estranha “Elevem”: uma menininha que surge do nada de cabelo raspado e a série gira em torno dela, isto é, porque e para que ele veio e de onde veio. No decorrer dos episódios ( todos os oito com sete horas e meia de duração) entendemos o surgimento da Elevem e o porque os guris estavam ajudando, alias já no primeiro episódio isso fica nítido já que o Will, um dos guris, some repentinamente quando está voltando da bike pra casa a noite. 

   Agora, e apesar de ter sido a terceira série mais vista da NetFlix, existem coisas que não se encaixaram muito bem. Podemos pensar: Eles deixaram para que todas as respostas fossem dadas na segunda temporada já garantida, mas a conjuntura principal da trama piloto, o que é essencial, não é muito nítida de modo que atrapalha toda a primeira série. 

  Bom, o Will some e sua mãe acredita que seu filho esteja vivo mesmo após uma semana sem rastros, pois é, intuição materna é coisa mesmo a ser estudada. Acham um corpo , porém ainda assim a mãe desacredita que este , mesmo o vendo, não seja do seu filho devido a falta de uma marca de nascença. O enterro acontece e quem acredita que o Will estivesse vivo começa a deslumbrar onde ele esteja. 

  As peças começam a se encaixar e a Elevem começa a ter algum nexo naquela história: trata-se de uma garota com poderes paranormais que , através da sua mente, pode empurrar ou até matar pessoas, e seu nome Elevem também não surge a toa: analisem bem, onze é um mais um , então pressupõe-se que a Elevem tenha uma dupla identidade, não? Para vislumbrarmos melhor essa teoria deixa apresentar-lhe a história um pouco mais. O Will estava vivo, mas não estava em nosso plano e a Elevem poderia ser a chave para todo esse mistério. Se colocarmos alguém em uma corda bamba, o sujeito só pode fazer duas coisas: ir pra frente ou pra trás. 

   Já se nessa mesma corda bamba colocarmos uma pulga, por exemplo, quais seriam as opções dela além das ditas? A pulga poderia dar um “Ziraya” e ficar na parte de baixo da corda bamba, e isto poderia acontecer também com uma barata ou um gafanhoto. Ou seja: eles poderiam estar no inverso, no oposto ou em um mundo paralelo ao nosso. 

  Os guris , com a ajuda do professor de ciências, matam a charada e com a Elevem vão em busca do seu amigo, o qual ninguém o acha nunca. Na série toda é mostrado um mostro sem rosto, este que seria o usurpador do Will e outros personagens que somem mais que repentina e instantaneamente. Este ET seria a outra face da garota boa e assustada Elevem, mas isso são somente teorias já que o grande erro da série é não arredondar esse imbróglio.

   Deixar pra explicar tudo em uma próxima série é muito risco e não seria tão amador eles fazerem isso, e é exatamente isso que pega no pretencioso seriado da NetFlix. Está tudo lá, isto é, todas as referências que os diretores têm de outros diretores e as vezes achamos que estamos vendo filmes como os Gonnies ou E.T., isso sem contar com as trilhas de bandas como The Clash, Led Zepelim, etc. 

   Se for pra comparar com outra série da Netflix recente como o The O.A. , onde já escrevi uma crítica, prefiro The O.A. pelo roteiro ser melhor fundamentado apesar de suas fontes serem menores em comparação a Stranger Things que coloca na bagagem toda uma década super produtiva culturalmente e que ainda está na memória dos filmes da sessão da tarde e nas lendárias bandas de rock que são atuais até hoje. 

   Enfim, vamos ter que esperar a segunda temporada de Stranger Things, coisas estranhas, para sabermos o que de fato é Elevem: uma menina e um mostro ou a trama se enveredará mais para o lado político, já que seu pai era um ex-hippie que fazia experimentos com LSD antigamente para expandir sua mante e procurar outros universos , e ao mesmo tempo, tinha ligações governamentais assumindo o departamento de Energia de todo um país da grandeza dos EUA. 

   É esperar e ver o que nos aguarda nessa medonha, mais ao mesmo tempo intrigante série que mexe com nosso imaginário, inclusive nos faz criarmos teorias como criei para desvendar tais mistérios inacabados à ainda por cima mexe também com nossos passados com filmes e banda favoritas, então se tenho um conselho a dar este é: veja até o capítulo oito, seja perseverante, e após monte seu próprio quebra cabeças, no mínimo sera divertido e em um fim de semana você consegue assistir a todos os capítulos sem pressa e com direito a pensar muito do que foi devorado por suas íris.