quinta-feira, 21 de mar?o de 2019
Cultura

EU FALEI FARAÓ, a senha da afirmação do OLODUM, por Zuggi Almeida

Zuggi Almeida é baiano, escritor e roteirista.
Zuggi Almeida , Salvador | 10/01/2019 às 12:21
Olodum e o perfume das rosas em 2019
Foto: Olodum

- Eu falei faraó !

A senha  foi dada para o desembarque e o séquito real egípcio ocupou as ruas, ladeiras e praças de Salvador.

Há 32 anos, deuses, reis e rainhas transportaram-se do Nordeste africano para brilhar sobre o sol do Nordeste brasileiro. Osíris, Ísis, Akhaenaton e Tutancâmon negros exibindo a beleza da cor da pele que impera na África passeavam tranquilos por Salvador, no verão.

O Egito é a Bahia. O Pelourinho, capital. O Olodum, a sua representação diplomática.

Aqui encontraram-se com os reinados dos povos do Alto-Volta, Watusi, Congo - Zaire, Zimbábwe e Nigéria dando continuidade a  expansão africana em solo baiano.

O Ilê Aiyê do Curuzu recebe o status de ONU sendo a grande referência das entidades negras no Hemisfério Sul.

Bem antes uma Embaixada Africana já desfilava garbosamente pelas ruas de Salvador no carnaval de 1895, sete anos após a assinatura da Lei Áurea e sucederam- se os Pândegos da África até a estréia dos Filhos de Ghandi, em 1949.

Assim, negros e negras baianos sempre estão refundando a África existente dentro de cada um nós. Uma resistência construída com força nas tradições, crenças e muito autoestima.

O Carnaval é o vetor que permite revelar aspectos de um continente rico, evoluído e lindo e que apesar das tintas pitorescas de Hollywood e da sordidez do racismo, reafirmamos o quanto  somos belos.

Os blocos afros e afoxés fazem a história levando a cada ano os seus cadernos  educativos para as ruas nesses dias de festa.

O poder público é que não se interessa por esse tipo de leitura.

Até porque, a nossa Cleópatra de Mussurunga é muito mais bonita que a Lyz Taylor do cinema.

Contrariando a falta de apoio, outra vez faremos mais um desembarque. Não será dos porões de navios tumbeiros, mas, de barcos vistosos chamados Muzenza, Cortejo Afro, Afoxé Pai Buruku, Bankoma, Didá e outros tão magníficos.

" E apesar de tanto não
Tanta dor que nos invade, somos nós a alegria    
  da cidade " -. Lazzo Marumbi