quinta-feira, 23 de novembro de 2017
Cultura

CLIENTE GORDO é o terror das churrascarias, por OTTO FREITAS

Passava das 9 da noite quando foram pra casa dormir como anjos o sono dos justos.




Otto Freitas , Salvador | 11/09/2017 às 15:26
Gordo adota todo tipo de carnes
Foto: DIV

Hoje é dia de contar a história do trio parada dura nos pratos, talheres e copos: Jarrão, porque é gordo, largo e redondo; Cuim, como o grunhido do porco gordão; e Rolha, a do poço, grande e gorda. São amigos de infância, nascidos e criados lá na Cidade Baixa, na Ribeira. Já sofreram muito bullying, mas nunca se entregaram. 

São três gordos enormes: o menorzinho é Jarrão, que tem mais de um metro e setenta e passa dos 150 quilos. Foi uma criança gorda, doida por doce. Já comeu de uma só vez todos os 50 enfeites de chocolate de sua árvore de Natal. Passou três dias de caganeira.

Depois, em ordem crescente, vem Cuim, com mais de metro e oitenta e 170 quilos. Gosta de coisas estranhas como pão com pimenta, abará frito e picanha com sarapatel. Certa vez comeu tanta carne em uma churrascaria que ficou com as gengivas sangrando. Passou dias sem conseguir falar direito.

Rolha, o mais alto no seu metro e noventa, tem uns 180 quilos. Até que não come muito, mas bebe cerveja em velocidade supersônica e em quantidades estratosféricas. Cerveja pra ele é praticamente uma bebida funcional, como água. 

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O sistema consagrado das churrascarias de rodízio é ininterrupto e vale desde quando o cliente chega até a hora em que ele sai, enquanto a casa estiver aberta e o consumidor aguentar comer. Daí a lenda de que gordo é o terror desse tipo de restaurante. Jarrão, Cuim e Rolha vão toda semana. Além de comer carne até se fartarem - o que demora, obviamente -, eles se divertem apostando quem come mais. O perdedor paga a conta. 
Acontece que churrascaria tem manha: assim que chega o cliente é imediatamente cercado por um exercito de garçons armados com espetos variados. A intenção é entupir logo os desavisados, inclusive aqueles que fazem pratos de pedreiro com os entupitivos do buffet. O objetivo é fazê-los consumir menos carne, não demorar muito, liberar a mesa e assim gerar mais lucro e mais gorjetas com a rotatividade. 

Mas o trio da pesada é profissional, só come carne, só aceita o primeiro corte, em pequenos nacos - e passa tardes inteiras degustando só o que gostam. Ai, os garçons começam a circular com baixa frequência e com restos de carne já cozida no espeto. Diante da recusa, pedem para o cliente indicar as preferências, mas demoram uma eternidade para atender. Aí os gordos se retam e vão embora. 

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Outro dia, Jarrão, Cuim e Rolha estavam na pressão, com muita fome, e quando os espetos começaram a rarear eles entesaram: “Queremos carne, conforme é nosso direito”. Foi um pega pra capar. Por celular, os gordos acionaram seus advogados, postaram a denúncia nas redes sociais, ligaram para amigos jornalistas e sindicalistas. Mas não arredaram pé da mesa de canto de sempre, onde bebiam e beliscavam coração de frango, linguiça apimentada e uma saladinha, enquanto aguardavam o retorno da carne.
 
A essa altura a porta da churrascaria já estava abarrotada de curiosos e manifestantes despejados por dois ônibus com aqueles profissionais do MSC - Movimento dos Sem Churrasco, pagos “a 10 real e um sanduiche de mortandela”. Bandeiras, camisetas e bonés vermelhos traziam a marca do espeto vazio com uma faca cruzada. O dono do restaurante chamou a polícia. Veio uma patrulha sob o comando do capitão Sacramento, um oficial totalmente zen, quase um monge budista, que tentava acalmar a situação entoando mantras.

A situação era tensa quando os advogados chegaram com uma liminar assinada pelo juiz Cresio D’Oro, obrigando a churrascaria a continuar servindo carne para os gordos, em ritmo normal, até o encerramento da casa. O proprietário ameaçou descumprir a ordem judicial, mas o capitão Sacramento algemou o homem. 

Oxente! O bicho ficou fininho, fininho, mandou servir os gordos com fartura e ainda prometeu fazer uma delação não premiada, contando tudo o que sabe sobre as falcatruas do seu fornecedor de carne, aquele mesmo que, sem o menor pudor, dilapida o patrimônio nacional e a língua pátria. 

Carne liberada, Jarrão, Cuim e Rolha completaram o longo e agitado almoço. Empanturrados, tomaram uma garrafa de licor de laranja com sorvete de chocolate, para fazer a digestão. Passava das 9 da noite quando foram pra casa dormir como anjos o sono dos justos.